Sem saída
Para vencer a Copa, Dunga aposta tudo em Kaká, um craque que enfrenta uma lesão traiçoeira, a falta de ritmo de jogo, a ausência de concorrência na seleção e a desconfiança do público
Para vencer a Copa, Dunga aposta tudo em Kaká, um craque que enfrenta uma lesão traiçoeira, a falta de ritmo de jogo, a ausência de concorrência na seleção e a desconfiança do público
Em volta da mesa estão Dunga, o auxiliar Jorginho, o médico José Luiz Runco e o preparador físico Paulo Paixão. É um almoço da comissão técnica da seleção brasileira. Mas rapidamente o encontro transforma-se em uma mesaredonda sobre a situação dos jogadores brasileiros às vésperas da Copa do Mundo da África do Sul. E a conversa chega em Kaká: craque do time, mas que passou a ser uma interrogação por causa de seus problemas físicos recentes. Ele estará inteiro no Mundial? Tem chance de sentir novamente a lesão no púbis? Sentirá a falta de ritmo de jogo? O Brasil tem um plano B para uma eventual ausência de Kaká?
Fica claro para os presentes no almoço que Dunga mudará o esquema que lapidou durante três anos se seu principal jogador não estiver em boas condições físicas ou técnicas no Mundial, após duas lesões seguidas. Ao tocar no assunto com seus colegas, o treinador não aparenta desespero, apesar de demonstrar não ter muito mais que um par de opções para suprir a ausência ou a defi ciência de Kaká, jogador que participou de 33 dos 52 jogos da seleção sob o comando do técnico gaúcho (índice de presença de 63,5%). Ele só esteve em campo em uma das cinco derrotas que o treinador amargou. Além disso, é um modelo que Dunga gosta de ver seus atletas seguirem: discreto fora de campo, aplicado taticamente e obediente a ponto de aceitar a reserva no início do trabalho do técnico à frente da equipe.
Conversando com seus colegas de seleção, Dunga e Jorginho levantaram poucas alternativas. Uma delas é recuar Robinho para fazer a função de Kaká. Outra é colocar o coringa Daniel Alves no meio para fazer o papel do meia do Real - e, por vezes, inverter de posição com Maicon. Pensar em opções é bem mais que um simples exercício. A comissão técnica já dá como certo que, após 45 dias parado, Kaká vai chegar em condições físicas abaixo das consideradas ideais. Espera, porém, pelo menos mais uma meia dúzia de atletas no vermelho e considera que pode recuperar todos a tempo. Na Copa da Alemanha, 11 dos 23 convocados se apresentaram longe das condições desejadas pela comissão técnica, segundo Moraci Sant'Anna, preparador físico da seleção à época, que não conseguiu recuperar todos.
No caso de Kaká, hoje, além de tomar cuidado para que as lesões não voltem e o atrapalhem na Copa, o mais importante é recuperar a forma física e o ritmo de jogo. Ele poderá fazer no máximo quatro partidas pelo Real Madrid até se apresentar à seleção. Se por um lado faltará tempo de jogo, por outro Kaká vai chegar mais descansado que em 2006, quando se apresentou após participar de quase todos os jogos do Milan na temporada.
Porém, o fato de o ex-são paulino estar no Real Madrid pode ser um fator negativo. Embora seja um dos maiores clubes do mundo (isso inclui infraestrutura, melhores profissionais e salários), a Copa de 2006 deixou más recordações. "Na Alemanha, comparado com os outros atletas, os jogadores do Real chegaram abaixo das condições físicas", diz Moraci.
PUBALGIA CRÔNICA?
Kaká chegou bem para a disputa da Copa da Alemanha, mas não brilhou como esperava. No fatídico jogo contra a França, lamenta até hoje ter jogado, segundo ele, "no sacrifício", com dores no joelho.
Agora, na Copa em que planejou disputar em seu auge, ser o protagonista, ele precisará de muita paciência para enfrentar uma cansativa rotina de fisioterapia e reforço muscular, que, aliás, fez durante quase 60 dias, entre março e fim de abril. Kaká é tratado pelos auxiliares de Dunga como um jogador que merece uma série de cuidados. O corpo técnico da seleção evitar falar em pubalgia crônica. Fez barulho reportagem do jornal espanhol Marca afirmando que Kaká tem esse problema e por isso precisará cuidar da lesão para o resto da vida. A informação sugere um drama na vida do jogador, mas os homens que cuidarão do meia na seleção tratam do fato como uma situação rotineira. "Todo atleta que teve contusões graves tem que passar por isso, faz parte da vida deles. E pubalgia é grave, mas hoje ele não sente nada no púbis", diz Runco.
Kaká terá de deixar de participar de alguns treinos da seleção para fazer esse tratamento, chamado de manutenção. Esforço triplo, pois ele cuida de um joelho operado, da pubalgia e, no início de março, num treinamento após jogo com o Lyon, em que seu clube foi eliminado da Liga dos Campeões, sofreu o estiramento no músculo adutor da coxa esquerda.
O fator que causou o problema no púbis de Kaká também foi alvo de muita especulação. A versão mais comentada foi a de que um tipo de exercício para o abdome que o jogador fazia no Milan provocou a lesão. O fisioterapeuta da seleção, Luiz Alberto Rosan, não descarta essa possibilidade. "Mas existem umas 12 causas que podem explicar cada tipo de lesão. Não dá para saber o que foi. Dos últimos 26 atletas que tratei com pubalgia, não foi possível determinar a causa de nenhum caso", disse Rosan. Segundo o médico Fellipe Savioli, especialista em ortopedia esportiva, em um jogador de futebol as principais causas são mais específicas: "Normalmente, o desgaste do púbis acontece por um maior esforço do músculo adutor ou do músculo abdominal".
O problema no púbis parece ser o maior fator de preocupação de Kaká. É considerada uma lesão traiçoeira. "Num dia o jogador está pronto para jogar. Corre e chuta sem problemas. No outro, não consegue nem andar direito de tanta dor", diz Moraci.
Ainda mais que os movimentos característicos de Kaká - arrancada e chute com a parte interna do pé - exigem dos músculos que forçam o púbis. E a pubalgia reaparece. "A tendência é que a pubalgia sempre volte. A gente faz tratamento, melhora, mas depois as dores reaparecem. Para resolver mesmo, só operando", afirma Moraci. Jorge Valdano, diretor-geral do Real Madrid, é otimista: "Com os exercícios de fortalecimento, esse problema não vai ressurgir". A maioria dos atletas tenta adiar ao máximo a cirurgia para evitar um longo período de inatividade. Operar em ano de Copa significaria desistir de ir à África do Sul.
No Mundial, para evitar dores, o meia pode se submeter a sessões de tratamento de três horas. Resultado: menos tempo para treinar com bola.
Dias antes de machucar a coxa, Kaká comentou com amigos na Espanha que estava incomodado com o cansativo tratamento para evitar novas crises de pubalgia. "Ele não nos fala mais nada de pubalgia e não passa preocupação em relação à coxa, diz que evoluiu bem. Mas tranquilo mesmo a gente só fica quando vê o jogador de perto", afirmou o médico José Luíz Runco, na semana que antecedeu o retorno de Kaká ao Real, contra o Zaragoza, em que entrou no segundo tempo e marcou o gol da vitória.
Os esforços de Kaká e dos médicos podem ser suficientes para que ele consiga jogar a Copa. Porém, depois do torneio, o meia deve ser reavaliado. "Após o Mundial, se for constatado que é preciso, o Kaká pode até ser operado", diz Joaquim Grava, ortopedista e uma das maiores autoridades em pubalgia no Brasil.
Enquanto a comissão técnica da seleção mostra certo otimismo em relação à recuperação física do meia, usando termos e expressões que parecem tirados de um manual de autoajuda, como "superconfiante", os amigos pintam um quadro desolador do período que o meia ficou no departamento médico. Descrevem Kaká nessa fase como um jogador pressionado e estranhando as diferenças entre o Real e seu antigo clube, o Milan. A pressão, lógico, é para que ele justifique em campo o investimento de 65 milhões de euros feito pelos espanhóis para tirá-lo da Itália.
"Ele está passando por uma provação. É um tratamento que exige muita paciência. E ninguém quer saber se o Kaká está ou não 100%. Todo mundo quer que ele entre em campo e resolva", afirma o pastor Anselmo Alves, que costuma acompanhar a seleção para orar e aconselhar os atletas. Anselmo virou amigo dos evangélicos do time de Dunga, como Kaká. "Ele vive um momento de muita pressão. Fica ansioso para voltar a jogar, mas pensa: 'Se não voltar 100%, posso me arrebentar de vez'. O Kaká é importante importante para a seleção e a gente já viu a falta que faz para o Real. Mas, se o time não está na ponta da tabela, a paciência diminui. Ele está angustiado, ansioso, é humano...", diz o pastor.
45 DIAS FORA
Uma prova da pressão é a manifestação de torcedores do Real na internet durante a última semana antes de o brasileiro voltar ao time. Os mais irritados reclamavam que o meia estava fazendo uma pré-temporada às custas do clube para estar 100% no Mundial. Kaká levou 15 dias a mais do que o considerado normal pelos médicos para ficar curado. A comissão técnica da seleção também avalia que o tempo médio para a recuperação de estiramento no músculo adutor da coxa é de 30 dias, não 45, como no caso de Kaká. Parte dos jornalistas de Madri faz coro com os torcedores descontentes por acreditarem que o brasileiro poderia ter retornado antes à equipe, mas não quis arriscar sua participação na Copa. "O Kaká tem um preparo físico raro, ele dá piques de 70 metros praticamente sem alterar a frequência cardíaca. Às vezes, quem o compara com o rendimento dos outros acha que ele já está bom, mas o Kaká exige um nível maior dele mesmo, talvez por isso ele tenha demorado um pouco mais", diz Luiz Alberto Rosan, fisioterapeuta da seleção. Durante os 45 dias em que Kaká ficou encostado, o Real perdeu cinco e ganhou apenas três dos oitos jogos que disputou, o que contribuiu para aumentar a impaciência dos torcedores do Real.
De fato, houve um ruído em relação ao retorno de Kaká ao time espanhol. No dia 16 de abril, sexta-feira, a imprensa espanhola relatou que no sábado o técnico chileno Manuel Pellegrini decidiria se ele poderia ser escalado no domingo, contra o Valencia. Só que Kaká já tinha ligado para a comissão técnica da seleção avisando que não atuaria, numa clara demonstração de sua preocupação com o time nacional. Estava sem dor, mas ainda não se sentia 100% fisicamente, por isso avisou que não jogaria. Os jornalistas espanhóis só souberam da decisão no dia seguinte.
Ao anunciar que Kaká estava liberado para voltar ao time, uma semana depois, Pellegrini escancarou outra contradição: "No momento em que não sente dor, como agora, ele se integra à lista de relacionados [para o jogo com o Zaragoza]". Porém, pelo relato do meia à comissão técnica da seleção, ele já não sentia dores havia pelo menos uma semana. O estafe de Dunga também vai na contramão da imprensa espanhola quando ela relaciona a contusão na coxa esquerda com a pubalgia. Por essa versão, a lesão no músculo adutor poderia fazer com que o meia voltasse a sentir dores no púbis. "Nenhuma chance de isso acontecer, uma coisa não tem nada a ver com a outra", afirma Rosan.
A desconfiança de torcedores e jornalistas de que Kaká só não retornou antes ao time porque está com a cabeça no Mundial é só um dos ingredientes que tornam a situação de brasileiro no Real desconfortável, pelo menos no período de sua última lesão. Idolatrado no Milan, ele caiu num clube em que a cobrança sobre os estrangeiros costuma ser maior. Nas palavras de uma pessoa próxima a Kaká, se o espanhol Guti faz um gol, é Deus. Já o brasileiro precisa marcar em todas as partidas para não ser criticado. "O próprio Kaká se cobra muito para estar sempre em alto nível e isso também aumenta a pressão", afirma o pastor Anselmo.
A cobrança não é o único ponto de desconforto na relação de Kaká com o Real. Apesar do status do brasileiro, o clube o proibiu de dar entrevistas enquanto estivesse se recuperando da contusão na coxa. A partir daí, engoliu várias notícias desfavoráveis a ele. Responsável pela lei do silêncio, o Real poucas vezes assumiu o papel de defendê-lo em público. Segundo o assessor do jogador, mesmo após sua volta aos gramados, ele continuava impedido pela equipe de dar entrevistas exclusivas. Há a desconfiança entre os amigos de Kaká que funcionários do clube trataram de municiar a imprensa contra ele durante sua recuperação.
A relação começou a azedar no jogo contra o Lyon, em que o Real empatou e foi eliminado da Liga dos Campeões. Kaká, substituído, saiu vaiado e resmungando. Foi naquele dia que o assessor de imprensa do meia, Diogo Kotscho, colocou em seu Twitter que "técnico covarde sempre tira um jogador cobrado para tentar desviar o foco de sua própria incompetência". A crítica, reproduzida também no Twitter de Caroline, mulher de Kaká, deu dor de cabeça ao meia, que ouviu um sermão do Real e o fez concluir que suas declarações ecoam mais no clube espanhol do que acontecia no Milan. No primeiro treino depois da partida contra o Lyon, ele machucou a coxa.
PLANO B
Encontrar um jogador com as características de Kaká já seria difícil em qualquer circunstância. Depois que Dunga decretou praticamente fechado o grupo que vai à Copa, a missão ficou mais difícil. Em condições normais, Ronaldinho Gaúcho seria capaz de fazer a função de Kaká. Porém, ele já não tem velocidade para se encaixar num time essencialmente rápido. E Dunga demonstra já ter fechado as portas para o jogador do Milan, um dos que saíram queimados em 2006.
É praticamente consenso entre os colegas de profissão de Dunga que é preciso pensar numa alternativa para o caso de Kaká não chegar inteiro ao Mundial. Muricy Ramalho, por exemplo, defende a tese de que Dunga deve levar um lateral a menos com o objetivo de abrir vaga para um substituto para Kaká. "Como o Daniel Alves tem facilidade para atuar nas duas laterais, Dunga poderia levar na vaga da esquerda o Ronaldinho Gaúcho, único capaz de substituir Kaká", diz Muricy. "Ele resolveria o problema sem cortar o Júlio Baptista."
O sucesso de Neymar no Santos fez perder força o movimento em prol da convocação de Ronaldinho Gaúcho. Quem convive com Dunga comenta até que o treinador não descarta chamar a sensação santista, mas não como reserva de Kaká. Seria convocado caso Adriano não entre em forma.
Menos mal para a seleção brasileira que o retorno de Kaká, contra o Zaragoza, saindo do banco de reservas e fazendo o gol da vitória por 2 x 1, foi animador. A volta triunfal, porém, é insuficiente para apagar o fato de que a pubalgia no fim de 2009 e a recente lesão na coxa esquerda tiraram o craque de quase 80 dias de treinos e jogos no total. Depois do jogo com o Zaragoza, sobraram só quatro apresentações com a camisa do Real antes que ele comece a treinar com a seleção. Diante das incertezas que cercam seu maestro e com um pequeno leque de opções na mão, Dunga, a pouco mais de um mês para a Copa, parece estar num beco sem saída. Pouco pode fazer além de atender ao pedido do pastor Anselmo: "Todos os brasileiros agora têm que orar muito pelo Kaká".
Matéria originalmente publicada na edição de maio/2010 da Revista PLACAR


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