O fantasma de Dunga
A CBF não queria, o treinador também não. Mas Ronaldinho Gaúcho está pedindo passagem para a Copa do Mundo
Por Arnaldo Ribeiro, Bernardo Itri e Ricardo Perrone.
Ronaldinho Gaúcho já é tratado como um dos 23 jogadores que irão à Copa do Mundo por pelo menos parte da comissão técnica da seleção brasileira. Numa conversa com a PLACAR, um dos profissionais que trabalham com Dunga disse: "Nós sempre soubemos que ele voltaria à seleção. E o Ronaldinho também sempre soube disso. Ele sabia que jogaria de novo em alto nível quando tivesse uma sequência, como acontece agora".
Mesmo antes de recuperar o bom futebol e de ser tratado novamente como "presença necessária" no Mundial da África, Ronaldinho não se afastou completamente do time nacional. Praticamente toda semana o jogador do Milan fala pelo telefone ou troca e-mails com um membro do staff de Dunga. Enquanto Carlo Ancelloti treinava o time milanês (até a temporada passada), era comum Ronaldinho telefonar antes dos jogos em que não atuaria para avisar: "Estou bem fisicamente. Só não vou jogar por opção tática do treinador".
O preparador físico da seleção Paulo Paixão, também gaúcho e que trabalhou brevemente com Ronaldinho em seu começo de carreira no Grêmio, conta como funciona esse "intercâmbio" com os atletas "convocáveis". "Monitoramos nossos jogadores há três anos. Não é só com o Ronaldinho. Mantemos contatos semanalmente com todos os atletas selecionáveis para acompanhar sua preparação. Eles pedem orientações sobre coisas que precisam aprimorar", diz Paixão.
Manter os laços com Dunga e companhia é só uma das estratégias de um cuidadoso projeto elaborado por Assis, o irmão e agente, para Ronaldinho tentar ir à Copa da África. O primeiro passo era fazer as pazes com Ricardo Teixeira, pois Ronaldinho saiu do Mundial da Alemanha chamuscado. Assim como Ronaldo e Roberto Carlos, ele irritou o cartola pelo desempenho em campo e pelas baladas nas folgas - um dia após a eliminação diante da França, foi fotografado em êxtase numa boate perto de Barcelona.
Num golpe de sorte, Ronaldinho se reaproximou de Teixeira. Partiu do cartola a ideia de uma reunião para oferecer a ele a possibilidade de jogar a Olimpíada de Pequim para ganhar ritmo de jogo, após se recuperar de lesão (e virar uma espécie de garoto-propaganda da equipe na China). O dirigente estava num beco sem saída, com o time jogando mal e precisando dar uma satisfação à torcida, já que optara por não demitir Dunga.
O fato de a seleção fracassar (foi apenas medalha de bronze) não foi tão ruim para Ronaldinho. Ele arrancou alguns elogios da comissão técnica por se relacionar bem com os mais jovens. "Ele é um cara fantástico. Muito simples até, por tudo o que ele representa no futebol. Um verdadeiro líder", diz o volante Lucas, seu companheiro de quarto em Pequim.
Disputar a Olimpíada foi uma etapa importante para Ronaldinho cumprir outra meta do projeto rumo à África do Sul: manter um relacionamento razoável com Dunga, que chegou ao time nacional encarregado de afastar baladeiros como ele.
O jogador nunca se rebelou com o treinador, mas não engoliu ter que ficar na reserva depois da Copa da Alemanha. Quem convive com Ronaldinho diz que ele se sentiu desrespeitado por Dunga no começo do trabalho do treinador na seleção. Mas que, com o tempo, o chefe aprendeu a lidar com astros (caso também de Kaká). Dunga, na verdade, foi obrigado a rever sua posição, sobretudo depois que teve de aturar o presidente da CBF anunciando em rede nacional a ida de Ronaldinho para a Olimpíada...
Respaldado novamente pelo apoio popular (veja resultado das enquetes abaixo), o combinado agora é evitar cobrar publicamente a vaga na Copa. "Para mim é difícil falar. Não quero que pareça pressão. O que o Ronaldinho fizer vai ser dentro de campo, ele não vai ficar falando em jogar o Mundial. Vai falar em ajudar o Milan a ser campeão", declara Assis, irmão, mentor e agente de Ronaldinho.
A sintonia que Ronaldinho exibe hoje com seu clube também é fundamental na sua recuperação. "Sabíamos que estávamos no caminho certo quando escolhemos o Milan, que lá ele poderia ter uma sequência de jogos. E carinho", afirma Assis, sobre a transferência de seu irmão do Barcelona, onde estava desgastado, para o clube italiano. Paciência talvez seja a palavra mais adequada (em vez de carinho) para explicar a relação dos milanistas com Ronaldinho. "O Sílvio Berlusconi [premiê italiano e dono do clube] liga sempre pra ele, o [vice-presidente Adriano] Galiani também está sempre o acompanhando. O Ronaldo chegou ao Milan depois de cinco meses sem jogar e eles sabiam que precisaria de tempo, tiveram compreensão," diz Assis.
Carinho?
Ao optar pelo time milanês, Ronaldinho confiava num ambiente favorável principalmente por causa da presença de Leonardo, na ocasião dirigente do clube. Mas a mudança saiu melhor que a encomenda a partir do momento em que o brasileiro virou técnico da equipe. Leonardo é amigo de Assis há 15 anos. Conhece Ronaldinho desde que o ex-melhor do mundo tinha 14 anos.
"Nos damos muito bem e isso colaborou para sua recuperação. Além disso, em ano de Copa, o jogador tem um estímulo a mais. De qualquer forma, eu diria que o mérito é todo do Ronaldinho, pois ele soube se levantar sozinho", disse Leonardo à PLACAR.
Ronaldinho ganhou de presente um técnico com quem fica muito à vontade para discutir posicionamento tático, situação bem diferente da que vive na seleção quando é convocado por Dunga, de quem não é íntimo. Além disso, Dunga já tem suas convicções no time nacional, e as construiu sem ter Ronaldinho por perto.
"O Leonardo tem conhecimento do que ele precisa, sabe como motivar o Ronaldo e compreende bem como deve ser o posicionamento dele. Sabe como montar um sistema em que ele renda bem", afirma Assis. Hoje, o camisa 80 joga praticamente como ponta-esquerda. E foi assim que voltou a brilhar e a atuar com frequência. Na temporada 2008/2009, com Ancelotti como comandante, o brasileiro entrou em 17 jogos depois de começar na reserva. Entre 2009 e 2010, só esquentou o banco três vezes. "É difícil dizer se o Dunga deve levar o Ronaldinho para a Copa do Mundo, mas é claro que se trata de um jogador que valoriza qualquer time que defende", diz Leonardo.
Mais do que carinho dos companheiros, do treinador ou dos cartolas, há na comissão técnica do Milan quem encontre uma explicação bem mais simples para a evolução de Ronaldinho nos últimos meses: mais trabalho e menos diversão. "É óbvio que a condição física de Ronaldinho hoje é melhor que a do ano passado. Ele corre mais, treina forte, mas o mais importante é seu estado de ânimo. Está mais tranquilo, relaxado e integrado, e isso conta muito na performance de um atleta. O resultado se vê em campo, no seu próprio corpo, perda de peso e maior resistência", diz Daniele Tognaccini, preparador físico do Milan.
A melhora aconteceu apesar de o craque não contar mais com o personal trainer que o acompanhou durante quase toda sua carreira, Valdimar Garcia, o Quim, tratado por Ronaldinho como um parente. Ele deixou de morar com o jogador para ser diretor do time que a família do craque montou, o Porto Alegre FC. "Ele soube aproveitar a estrutura do Milan e cresceu a partir do trabalho de manutenção de potência muscular que o clube faz com ele. O futebol na Itália é de mais força e ele se adaptou, está mais forte", afirma Quim.
O velho amigo do jogador se irrita com os comentários da imprensa italiana de que o meia-atacante está melhor fisicamente porque bebe menos e frequenta menos baladas. "Ele sempre foi muito trabalhador. Agora, quando o cara está viajando pela Europa, Paris, Barcelona, Milão, se não puder aproveitar, fica difícil", defende o ex-preparador físico particular do jogador.
Os jornalistas que acompanham diariamente o Milan contam que Ronaldinho agora prefere as festas em sua mansão cinematográfica a baladas em Milão. Motivos para ficar na toca ele tem de sobra: mora num palacete em Galliate Lombardo, a 14 km do CT do Milan, avaliado em 5 milhões de euros e que tem um parque interno, um lago, duas piscinas e foi construído em três andares.
Porteira aberta...
Independentemente do comportamento extracampo de Ronaldinho Gaúcho, os números recentes jogam para valer a favor dele. Pouco depois do início da segunda metade da temporada 2009-10, o jogador já havia feito duas partidas a mais e apenas um gol a menos do que em todo o período 2008-09. Até 22 de janeiro, Ronaldinho exibia na atual temporada, pelo Milan, média de gols parecida com a que ostenta pela seleção brasileira...
De acordo com dados da CBF, com a camisa canarinho, ele marcou 28 vezes em 72 partidas, média de 0,38 por jogo. Entre 2009 e 2010, no Milan, sua marca é 0,37 em cada apresentação (veja o gráfico abaixo). As marcas, somadas às jogadas de efeito e ao sorriso de volta ao semblante, já foram o bastante para o início da pressão sobre Dunga por sua convocação. "Ele voltou!" Situação para lá de desconfortável, pois o treinador já tinha o time praticamente fechado.
Mas cavar um lugar no time baseado no clamor popular e na pressão da mídia não é o estrago maior que Ronaldinho pode provocar nos planos de Dunga. Seu retorno é a brecha de que Ronaldo e Roberto Carlos precisam para retornar também. Os três foram rotulados pela CBF como medalhões ricos, desinteressados e baladeiros. Responsáveis diretos pela eliminação na Copa da Alemanha, em 2006, contra a França. A porteira estaria definitivamente aberta com o retorno de Ronaldinho, e a missão de Dunga de chegar à África com um time renovado e mais comportado, ameaçada.
"Não podemos passar por cima da Copa de 2006. O Ronaldo foi mal, mas e o que ele fez em 2002? As pessoas têm memória curta, mas o que ele fez nos últimos seis meses é exatamente o que fez em 11 anos de carreira na seleção brasileira", afirma Assis.
A convocação para jogar o Mundial 2010 seria a chance para o craque apagar a última impressão. Se triunfar em sua missão de ir à Copa, Ronaldinho terá, então, o desafio de brilhar num ambiente bem diferente daquele com que se acostumou, agora sem seus antigos amigos da turma do fundão. A menos que traga de carona Ronaldo, Roberto Carlos e companhia...
Colaboraram Fernanda Massarotto, de Milão, e Bernardo Pires Domingues, de Londres.
Fonte: Placar

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