quarta-feira, 3 de março de 2010

As 5 bombas que o São Paulo precisa desarmar

A insurreição de jogadores da base abriu os porões do Morumbi.

Os processos movidos contra o São Paulo pelos jogadores das categorias de base mostram apenas parte do pavio que leva a uma série de bombas espalhadas pelo clube do Morumbi. No CT de Cotia, por exemplo, os jovens simplesmente não acreditam que poderão atuar um dia na equipe principal. "A base é chamada de 'Time da morte', porque ninguém chega ao profissional", diz Oscar, um dos que processam o clube, considerado até então a maior revelação são-paulina desde Kaká.

Além dele, de Diogo e de Lucas, outro insatisfeito é Matheus Finisguerra. Segundo a mãe, Ana Finisguerra, o clube não quis renovar o contrato do garoto porque seu agente é Giuliano Bertolucci, que, depois da insurreição da base, passou a ser considerado inimigo pela cúpula são-paulina. Com o contrato perto do fim, Matheus foi dispensado dias antes do início da Copa São Paulo de Juniores.

O imbróglio envolvendo jovens talentos, empresários e diretoria afeta o time principal. O último prata da casa bem vendido foi Breno. A escassez na produção de atletas com possibilidade de negociação para o exterior culmina também com menos negociações lucrativas para o clube. PLACAR rastreou onde estão as minas que o presidente Juvenal Juvêncio precisa desarmar para que o São Paulo não tenha seus terrenos devastados.

1. Guerra de agentes

A briga de agentes com a diretoria e entre empresários é uma amostra da batalha em que se transformou Cotia, berçário do clube.

Os casos de Oscar e Lucas Piazon, agenciados por Giuliano Bertolucci, só mostram a ofensiva do São Paulo, que ocorre há algum tempo, em fazer com que os pratas da casa rescindam seus contratos com ele. "O Geraldo mandava documentos para eu assinar dizendo que o Matheus não era empresariado pelo Giuliano nem por nenhum outro agente", diz Ana Cristina Finisguerra, mãe do jovem Matheus.

Por meio da assessoria de imprensa do clube, José Geraldo de Oliveira (o Geraldo), supervisor das categorias de base, se limitou a dizer que conversa com os pais dos garotos, mas que não indica empresários. A origem da discórdia é a disputa por porcentagens dos direitos dos atletas. "Eu ignoro essa gente [empresários que atuam na base]. Aqui é um jogo militar, não entra, não é recebido", afirma o presidente são-paulino, Juvenal Juvêncio.

Do outro lado, agentes insinuam, sem citar nomes, que a diretoria age assim para favorecer algum empresário. "Isso é uma balela que não pode prosperar", declara Juvenal. A entrada de um novo agente no mercado pode colocar mais lenha na fogueira. Tadeu Cruz, filho de Milton Cruz, auxiliar-técnico e homem de confiança de Juvenal, conseguiu a licença da Fifa no ano passado. Informalmente, diz que será inevitável em algum momento negociar no clube. "Não posso proibi-lo de trabalhar, mas posso proibir que ele trabalhe aqui dentro. Ele já foi avisado, aqui ele não chega perto", afirma Juvenal. Uma pimenta a mais nessa história é a relação de amizade que Tadeu tem com Bertolucci, atual inimigo número 1 da cúpula tricolor.

2. Efeito cascata

Henrique, de 18 anos, reserva do São Paulo, simboliza a rapidez com que a batalha nas categorias de base entre Giuliano Bertolucci e o presidente do clube, Juvenal Juvêncio, refletiu no time profissional.

O atacante foi procurado por cartolas do clube que tentaram convencê-lo a trocar de agente. A investida fracassou, mas os dirigentes não desistiram. O cenário apresentado para Henrique é que, enquanto estiver com Bertolucci, não vai deixar de jogar, mas terá dificuldades para renovar contrato, assim como aconteceu com Matheus. Pedir um reajuste, nem pensar. "Quando o Henrique se apresentou, eu disse: espero que você não me decepcione também", afirmou Marco Aurélio Cunha, superintendente de futebol.

Essa crise pode mudar o ritmo da entrada de jovens no time principal. O episódio reforçou a convicção do técnico Ricardo Gomes que jogadores só devem ser promovidos se forem escalados imediatamente. Para o treinador, conviver com os profissionais, sem ter a chance de jogar, não traz benefícios aos jovens. Eles convivem com atletas que ganham mais, ficam mais ansiosos para deslanchar e não aceitam a reserva. Oscar, por exemplo, antes de entrar na Justiça, cobrava seu empresário para ajudá-lo a ganhar mais e a entrar na equipe principal.

Segundo Gomes, contra o Mirassol (pela segunda rodada do Paulistão), ele escalaria mais pratas da casa, além dos cinco que jogaram. "Antes das férias falei para os garotos, inclusive Oscar e Diogo, que eles jogariam o Paulista", disse o técnico. Oscar duvida: "Qual é a garantia? Em 2009, eu fazia treinos como titular e, às vezes, nem era relacionado para o jogo".

O clima bélico aumenta a pressão para que os garotos sejam promovidos. Wagner Ribeiro, agente de Marcelinho, revelação na Copa São Paulo, ameaça tirá-lo do Morumbi caso o jogador não receba atenção e chances para atuar.

Mas Gomes está decidido a não promover as revelações imediatamente. A menos que perca atletas do profissional. Na outra ponta da corda, os cartolas querem mais jovens no time principal, para valorizar o investimento no CT de Cotia. "Sempre disse que quero o time jogando com 90% de atletas da base", afirma Juvenal Juvêncio.

Também pode haver reflexo nas futuras contratações. Além da força de Bertolucci na base de times brasileiros, ele tem clientes consagrados, como Elano, Luisão e outros jogadores de seleção. Ou seja, caso se interesse por algum atleta de Bertolucci, o São Paulo pode ser preterido. Ao mesmo tempo, a rusga pode ser mais um obstáculo para o tricolor negociar com clubes europeus. Bertolucci tem contatos no Benfica, na Inglaterra e na Turquia.

3. Falta de dinheiro

Em 2009, o Corinthians virou motivo de chacota no Morumbi por fechar contratos de patrocínio para um único jogo. Só que agora é a vez de o São Paulo agir assim. "Faremos patrocínios de um jogo só porque quero sentir o mercado. Depois farei um contrato maior que o anterior, porque temos uma marca forte", diz o presidente Juvenal Juvêncio.

O cartola não convenceu a LG a pagar cerca de 30 milhões de reais, quase o dobro do que a empresa desembolsava, para renovar contrato.

Além do patrocínio, o clube tem problemas com outra fonte de receita: o Morumbi. O estádio, que perdeu o Corinthians como inquilino, ficará um período fechado para obras visando a Copa de 2014 e o clube terá de jogar em Barueri, pagando aluguel. "Não tem problema, o aluguel é barato e eles têm 12 camarotes para acomodar os nossos", diz Adalberto Dellape, diretor de marketing.

A diminuição nas receitas aumenta a pressão para que as categorias de base forjem um jogador capaz de alcançar uma venda milionária. Porém, nos últimos dois anos, o centro de formação gerou mais gastos do que receita. Segundo Juvenal, ele consome 8 milhões de reais por ano. E, de acordo com o balanço de 2008, foram torrados 2,9 milhões de reais com as dispensas de 33 jogadores formados na base.

O presidente não demonstra pessimismo. "Vamos fechar o balanço de 2009 provavelmente com um pequeno superávit", diz.

4. Ataques ao comando

Juvenal Juvêncio, antes unanimidade, começa a sofrer ataques, ainda que de forma velada.

O fato de Cotia custar a produzir um jogador que renda uma venda milionária é uma das principais queixas. A autonomia e a distância entre os responsáveis pelo futebol amador e profissional incomoda. "O pessoal da base tem o rei na barriga", diz José Augusto Bastos Neto, ex-presidente.

Incomodado com as declarações que considerou inoportunas de alguns dirigentes, Juvenal deve diminuir os poderes dos que os cercam. Avalia que não estão preparados para agir em momentos críticos. Saíram chamuscados do episódio Kalil Rocha Abdala, diretor jurídico, e Marco Aurélio Cunha. Ambos deram declarações consideradas desastrosas pelo presidente. O superintendente de futebol, acusado por Oscar de pressioná-lo a mudar de empresário, rebate: "Jamais pedi para ele ou outro jogador trocar de empresário. O que sempre digo é que é melhor não ter empresário".

Sobre a fala de Cunha, de haver erros na base, Juvenal disparou: "Quem entende de futebol é só 1%, o resto é assistente". "Se ele não concorda, tudo bem. Ele que manda", diz Cunha.

Juvenal também é contestado por diretores por insistir em atletas com histórico de indisciplina, como André Luís, e pagar altos salários a jogadores medianos. "Não me preocupo se já foi indisciplinado. Aqui não faz. Se fizer, eu ponho na rua", diz Juvenal.

O cartola não perde a pose com os focos de insatisfação. Não se assusta com o passado de Palmeiras, Corinthians e Santos, que viram o fim do reinado de cartolas a partir da cumplicidade de ex-aliados com a oposição. E tudo começou com tímidas demonstrações de contrariedade.

5. Justiça em cima

A pilha de processos em cima da mesa dos advogados são-paulinos não tem apenas casos de atletas da base. Desde 2003, 21 jogadores acionaram o clube. "O número não é alto se for comparado aos outros times. A maioria dos processos é por direito de arena [repasse que os clubes têm que fazer referentes à transmissão dos jogos]", diz Marcel Belfiore, uns dos advogados do São Paulo.

Entre os atletas que brigam com o São Paulo na Justiça estão Amoroso, Souza e Aloísio. Pelo menos mais três jogadores consultaram advogados para estudar ações semelhantes.

Acusações de coação contra o clube, como as feitas por Oscar, não são inéditas. Em 2009, o São Paulo assinou no Ministério Público do Trabalho um Termo de Ajustamento de Conduta, comprometendo-se a não coagir ex-funcionário que entra na Justiça em busca de indenizações.

Em breve, o clube deverá dar explicações ao MPT, que quer justificativas sobre as emancipações na base.

Fonte: Placar

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